Depois de anos, fui a um aniversário de um amigo do trabalho. Sim, à noite. Sim, com pessoas. Sim, sóbrio, pelo menos até o sexto copo de caipirinha.
Confesso que estranhei: não lembrava que a noite paulistana tinha virado esse desfile distópico de cosplay involuntário de cybergoth com brechó do apocalipse. Calças largas, tecidos sem coordenação cromática e um conceito estético que parece ter sido decidido por um comitê de IA bêbada.
No metrô, às 19h de uma sexta-feira, fui soterrado por uma multidão de criaturas noturnas com sede de diversão e ausência de espelho. A juventude segue igual: malvestida, apática e obcecada em ser diferente exatamente do mesmo jeito.
O evento foi no Cu do Padre, em Pinheiros, bar que é quase um personagem na minha história nesta cidade. Fui habitué, confesso. Vivi bons momentos lá, daqueles que não se repetem.
O lugar segue o mesmo: kitsch, mofado com charme, aqueles livros velhos que ninguém lê, mas todo mundo fotografa. Uma cápsula do tempo onde só o meu joelho envelheceu.
Já o aniversariante é um daqueles sujeitos raros: inteligente sem precisar provar, ácido sem ser tóxico e engraçado do tipo que não precisa fazer careta.
Eu, claro, fui com um pé atrás (o outro já meio fora) porque essa minha convivência profissional intergeracional anda mais para The Office do que para Mad Men (Por falar nisso, esse meu amigo, de galhofa, me insulta de Mini Craque de Don Draper. E eu adoro).
Na agência onde trabalho, sinto-me num reality show onde o desafio é sobreviver a conversas sobre realities shows e seriados hypados de zumbis. Vai se fuder pra lá, Diabo!
Mas os amigos do aniversariante… Ah, os amigos! Surpresa das boas: gente como a gente, com miolos no lugar (ou não), repertório vasto e zero necessidade de performar sabedoria de TikTok.
A conversa fluiu como num daqueles filmes franceses que acabam sem final, mas deixam uma sensação boa. Falamos de tudo, com todo mundo, uma suruba de ideias fabulosa e, por um instante, achei que havia caído num universo paralelo curado pela Mubi. Valha-me, Santa Clara!
Na saída, madrugada alta, fiquei entre os últimos a ir embora. Foi quando me veio à mente aquela velha charge: Jorge seria um ótimo parafuso, mas o medo fez dele um péssimo prego.
Pois é, meu peregrino. Que a gente saiba reconhecer os nossos encaixes (mesmo que tortos) e que não se deixe oxidar pelo medo de não pertencer. E acredite: o lugar certo está só esperando que você sente e peça uma cerveja.
Depois disso, é só respirar fundo. E lembrar que estar vivo se parece muito com tudo isso.
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E sim, antes de sair, enviei uma foto ao grupo confirmando presença, porque nada diz relevância social como anunciar, com sutil desdém, que você vai mesmo comparecer. Jovem cringe descolado e perigosamente consciente disso.
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O aniversariante trajava, de modo natural, com um certo deleite intelectual, uma camisa do filme Jeanne Dielman, da Chantal Akerman. Só essa referência já bastaria para filtrar o público, ou ao menos para sugerir que o dress code da noite incluía uma pós-graduação em cinema europeu. O que certamente não era o meu caso, posto que eu sou um jegue que oferece coices gratuitos.
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as vezes me pego pensando se depois dos 30 a gente só está esgotado demais da vida adulta, se a gente esqueceu ou perdeu o pique da juventude ousada, se só encheu o saco mesmo… HAHAHA são muitas possibilidades e no geral eu sinto que não tenho mais energia, lombar e bateria social para eventos. aaaainda assim, fico surpresa como em alguns casos (geralmente envolvem aniversários, não sei se é peso na consciência por ser chata por muito tempo) a gente relembra desses bons momentos. aquele gostinho de vai me custar o carisma da semana mas ainda assim foi bom HAHAHA
Certíssima, dona Moretti.
Pra mim, até que isso é tranquilo… eu era boêmio, vivia na rua, adorava um rolê. A pandemia e um filho me quebraram nesse aspecto. Hoje em dia meu rolê favorito é quando consigo terminar um café ainda quente e ter 10 minutos de silêncio. O pique até existe, mas tá guardado a sete chaves, só sai em ocasiões muito específicas e mesmo assim, volta mancando. 😄
Resumindo: não é que a gente perdeu o espírito jovem… ele só ficou meio preguiçoso, gosta de um planejamento prévio, de saber a hora de ir embora e, principalmente, de um bom motivo pra ser ativado. Aniversários: sim. Balada de última hora: depende da lombar. ahhahaha