Então, há um morto frio aí com você, hein? Ok, relaxa, mantenha a compostura.
Primeiro passo: aja como se nada tivesse acontecido. Olho firme para o horizonte. Precisa todos saberem que mal consegue diferenciar terça-feira de quinta? Não mesmo.
A vida é uma encenação tão elaborada que às vezes até os figurantes acham que são protagonistas. “Fake it till you make it.” Perfeito. Sorria.
Publique stories animados. Tire foto com a galera. Diga que está “num momento de reflexão”, que está “focado em novos projetos”. Funciona melhor do que admitir que seus movimentos atuais são sobre atravessar o dia sem virar uma lenda urbana.
Dicas práticas: carregue um caderno bonito. Um livro cult. Tome café em em lugares bonitos. Fotografe-se. Inscreva-se em cursos online que jamais vai terminar. Diga “gratidão” em reuniões. Todos vão te adorar.
Diga que mudou, sim. Que está em processo (nome mais elegante e esperto que desistência. Processo é desistência com sapatos caros, cita autores russos e sabe dar tchau para os próprios sonhos com muita classe).
Agora, sobre esperança, essa criatura imperfeita, anote o mantra:
“Quero uma esperança que saiba roubar cigarros, atravessar becos escuros e rir de quem ainda acha que o final vai ser feliz.
Quero uma esperança suja de vida, que nunca pediu licença para nascer.
Quero uma esperança que fuma baseado escondido, que ri nas horas erradas e veste o puído e manjado terno do sarcasmo.
Quero a esperança que tenha a decência de não pedir desculpas por existir.
Quero a droga da esperança que acende cigarros com o fósforo dos próprios fracassos”.
Repita quantas vezes quiser, todos os dias pela manhã.
Mas como eu ia dizendo, arrastar um corpo congelado sem perder a pose é uma arte.
Requer prática e uma boa dose de escárnio disfarçado de resiliência.
Porque eu sei que você sabe que não é para aquele emprego glamouroso, com benefícios mil. Você não é aquela pessoa cool, interessante e triste, que vê filmes estranhos do leste europeu. Você não pertence ao seleto grupo que vão juntos na melhor festa underground da cidade.
Não, não mesmo. Você sonha, você quer. Mas a realidade te puxa pelo pé, não deixa vir à tona. São tantas as variáveis…
Concentre-se no agora. Na sua raiva. Escreva no escuro. Ouça suas vozes internas. Deixe o coração soltar suas mágoas. A realidade martelando a cabeça do corpo. Daí você cai.
A dor te aponta o momento, te trás para o real. Você lembra de todas as vezes que o sol se pôs e te banhou com uma tonalidade laranja imensurável. De todas as vezes que esse laranja se misturou ao olhar verde-cinza do amor de sua vida.
E eu sei que na sua cama, você vai adormecer com uma última coisa. Fechar os olhos com um pensamento que pesa uma tonelada, uma vastidão silenciosa que revela grandezas que nem o sono ousa apagar.
Porque nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus. Então, meu bem, a palavra é o segredo. O descrever a sequência de eventos, de fazer poesia com todo esse caos que nos cerca, é o que nos salva.
Escreva.
Alimente nossas expectativas bêbadas. Não esqueça que somos apenas um cavalo branco estúpido, com um Pica-Pau de desenho animado no lombo, segurando uma vara de pescar com uma cenoura posicionada à frente dos nossos focinhos. O engodo é o que nos move.
Levante a cabeça. Sorria. Ponha sua roupa preferida. Saia à rua. Arraste o corpo congelado ouvindo True love will find you in the end, do Daniel Johnson, de modo pleno e nas alturas.
A verdadeira morte é isso que você finge viver. E ainda assim, nas frestas do desespero, há uma beleza brutal nessa farsa.
Agora, como bem disse Antônio Brasileiro, a verdade é uma só: são muitas!
Ninguém liga para o seu corpo morto.
Ninguém vai suspeitar que você é só mais um triste e solitário assassino, especialista em disfarces, digno de inveja até do Diabo.
Ninguém precisa saber que aquilo que arrasta é seu próprio corpo. Não dê essa ousadia, por favor. Tenha estilo.
Porque isso é a vida. Contraditória, dolorosa, sublime.O resto é enfeite. E mesmo assim ouso dizer que ela é bela.
Porra, como ela é bela!
Continue arrastando o seu corpo congelado sem perder a pose.
:::
True love will find you in the end
You’ll find out just who was your friend
Don’t be sad, I know you will
But don’t give up until
True love will find you in the end
This is a promise with a catch
Only if you’re looking, can it find you
‘’Cause true love is searching too
But how can it recognize you?
Unless you step out into the light
Don’t be sad, I know you will,
But don’t give up until
True love will find you in the end
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