No ano de 1998, The Delgados puxaram os fios da parede e lançaram Pull The Wires From The Wall, uma canção que já nascia com cheiro de sonho velho e a urgência dos sentimentos que a gente nunca teve coragem de dizer.
Quem estava vivo e consciente naquela época, lembra do videoclipe estranhíssimo que passava no Lado B, da MTV, apresentado por Fábio Massari. Era o tempo das mixtapes gravadas com cuidado. Músicas como bilhete dobrado com carinho.
Ao primeiro acorde, aquela sensação de déjà vu. Foto amarelada de um lugar onde seu corpo nunca esteve, mas sua alma conhece cada rachadura no asfalto.
A melodia crescia em espirais de melancolia adocicada, cartinha sem assinatura, abandonada na gaveta das coisas que poderiam ter sido.
Música-fantasma para amores-fantasmas. Trilha sonora do olhar que poderia atravessar qualquer distância, mas nunca ser percebido.
Os olhos da cor de segredo, com fones de ouvido derramando bandas indies obscuras de países frios, aquela forma de andar como se a gravidade fosse apenas uma sugestão.
Quem conheceu o segredo de Pull The Wires From The Wall ensaiou infinitos começos para histórias sem finais. Tornou-se paisagem sonora para geografias imaginárias. Foi até cafés nunca visitados onde conversas importantes aconteceram apenas dentro do crânio.
Deu beijos em escadarias de emergência que nunca sentiram o peso dos passos. E fez fugas noturnas em bicicletas emprestadas sob a luz amarela de postes-testemunhas.
Anos depois, quando a agulha encontra novamente aquele sulco, percebo: continuo sendo aquela pessoa eternamente à beira do gesto. E a música, sábia, ainda sussurra através da voz quase etérea de Emma Pollock: o que não aconteceu também é tesouro.
Porque há beleza peculiar nas cidades que nunca construímos, nas vidas paralelas que existem apenas como possibilidade.
Hoje, arrancar os fios da parede significa outra coisa: retornar àquele território onde a timidez era forma de poesia e onde gostar em silêncio era arte refinada.
Não lamente por nada do que poderia ter sido. Alguns sonhos, mesmo nunca realizados, alimentam a alma por toda uma vida.
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