
Numa manhã fresca, em um ginásio que exala um leve odor de desinfetante e determinação, Anne Carson (a celebrada poeta canadense, ensaísta, tradutora e professora de clássicos cuja obra há muito desafia categorização) permanece com as mãos estendidas, aguardando.
O ritual se desenrola com precisão ensaiada: uma luva desliza para sua mão, seguida pelo curioso momento de dependência quando alguém precisa ajudá-la a colocar a segunda. Esta interação aparentemente mundana representa, em um microuniverso, o peculiar acordo entre autonomia e assistência que agora caracteriza sua vida.
Carson, cuja proeza intelectual permitiu-lhe atravessar as paisagens da literatura grega antiga e da poesia experimental contemporânea com igual destreza, agora se encontra navegando pelo terreno imprevisível do Parkinson.
Três vezes por semana, ela se junta a outras pessoas em iguais condições numa academia, onde os socos não são lançados contra adversários, mas contra a inexorável marcha desta doença neurológica que tenta silenciar o corpo.
No ano passado, ela publicou um tocante ensaio na London Review of Books, descrevendo com sua famosa precisão linguística como seus neurônios parecem travar uma batalha interna enquanto tenta executar as combinações dos golpes.
É uma metáfora que poderia facilmente encontrar lugar em um de seus textos experimentais: o confronto entre intenção e execução, entre o desejo do cérebro e a capacidade do corpo.
O fato de neurologistas recomendarem o boxe como catalisador para a neuroplasticidade, carrega uma ironia que certamente não passou despercebida pela escritora.
É quase como se a violência controlada do esporte fosse recrutada para a missão oposta: despertar células cerebrais adormecidas ou gerar novas conexões neurais.
Embora a modalidade não figure como tema central em sua obra literária (que abrange desde traduções inovadoras de Safo até híbridos de poesia-ensaio que desafiam convenções), este capítulo tardio em sua vida ecoa a abordagem que sempre adotou em relação à arte: exploratória, experimental e profundamente corpórea.
Para Anne, a experiência com o Parkinson e o boxe não representa uma ruptura, mas uma continuidade. Mais um território inexplorado em que a fragilidade humana e a resistência se encontram em um abraço complexo e, por vezes, contraditório.
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Verti lágrimas ao final de “Gloves On!”. É bonito, gracioso e frágil… Mas poderoso. Além disso, entendo nos mínimos detalhes o que Anne quer dizer. Se eu, que não tenho nenhum problema neurológico percebi melhoras na minha mente, imagina ela.
Anne narra a desintegração de sua caligrafia após o diagnóstico de Parkinson, refletindo sobre a perda de uma expressão íntima de si mesma. Ela cita Roland Barthes, que, ao descrever a mão trêmula do pintor Cy Twombly, admira sua leveza e a capacidade de unir o que aparece e desaparece, vida e morte em um único gesto. É tudo sobre explorar a conexão entre a arte, a escrita e a condição humana, onde o tremor da mão se torna uma metáfora para a impermanência da vida e da expressão.
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Não é exagero uma pessoa saudável dizer que o boxe salvou sua vida. Entrei há um ano com o intuito de descarregar as frustrações diárias e fui agraciado pela descoberta de um esporte sofisticado, inteligente, que revela a força escondida que inerentemente todos nós possuímos, seja lá a idade que tivermos.
O boxe me resgatou das sombras que eu mesmo criei. Me deu amigos, risos e a leveza dos momentos simples. Está moldando meu corpo, aguçando a minha mente e oferecendo uma vontade de viver imensa.
Me deu um humor afiado, uma clareza feroz, uma resiliência de aço. Hoje, me sinto pleno.
E diariamente, invencível.

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Anne quando jovem.
“Me dê uma máquina do tempo, e eu volto sem hesitar
para encontrar seus olhos no instante certo,
pedir-lhe a eternidade em um suspiro,
e envelhecer ao seu lado como quem escreve um poema sem fim.Me dê uma máquina do tempo, e eu a usarei sem hesitar.
Voltarei sempre ao exato instante em que nossas vidas se cruzaram,
para garantir que cada ruga em meu rosto fosse esculpida ao lado das suas.
Que cada ano que passasse fosse um verso escrito a dois,
e que envelhecer fosse apenas outra forma de dizer:
“Eu sempre voltaria para você!”
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Leia o ensaio completo (em inglês, mas, pelo amor de deus, só clicar com o direito na página e ir até traduzir. Ele faz o trabalho direitinho): https://www.lrb.co.uk/the-paper/v47/n04/anne-carson/beware-the-man-whose-handwriting-sways-like-a-reed-in-the-wind
Assista ela lendo o ensaio: https://www.youtube.com/watch?v=g8fPmTtG0qw
Conheça mais sobre Anne Carson: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anne_Carson
Leia os seus livros: https://www.amazon.com.br/s?k=anne+carso&__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&crid=3L0FDAGOMZ6Y9&sprefix=anne+carso%2Caps%2C363&ref=nb_sb_noss_2
Veja o vídeo (em português) sobre o livro Eros – o Doce-Amargo: https://www.youtube.com/watch?v=ILnNJ_C6kqg
Veja esta entrevista de setembro de 2024 (Lindíssima e apaixonante com seus 75 anos): https://www.youtube.com/watch?v=ksH3FIs0eJs
Faça boxe!
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