Estamos todos vivendo esse zeitgeistzinho fulero, duro de engolir. Nos dias que correm, temos um momento político de ascensão de figuras autoritárias respaldadas por big techs e elites econômicas, com resoluções controversas que ameaçam direitos, liberdade e democracia.
Em um cenário que se desenvolve para outro patamar, exige-se novas formas de resistência brincante para nos ajudar a transitar em sistemas opressores com muito improviso e ousadia.
Pensando nesses pontos, dia desses percebi que neste nosso brasilzão já possuímos um um conceito bem típico de sobrevivência e transformação, que encontra brechas no cotidiano para criar alternativas e resistir de maneira engenhosa às forças que tentam silenciar: a boa e velha malandragem.
Deixe-me explicar.
Na roda de samba, na conversa fiada ou no jogo de cintura para lidar com a dureza do dia a dia, as manhas do malandro é nosso hacking cultural, uma solução inteligente para problemas difíceis, muitas vezes, à margem do que é padronizado.
A malandragem é o samba que corre nas veias da rua, o sorriso enviesado de quem enxerga caminhos onde outros veem paredes. É o gingado do improviso, o drible na lógica, uma dança entre o que existe e o que pode ser inventado.
É navegar o caos com leveza, como quem transforma o vento em vela e o tropeço em passo de dança.
No contexto das religiões de matriz africana, carrega o gingado das pessoas comuns que estão no corre, encontrando uma identidade forte e coletiva. É sobre usar os recursos disponíveis, mesmo que limitados, para criar novas possibilidades, desafiar o status quo e transformar o pouco em muito.
Massa mesmo é perceber que todos estes parâmetros se conectam diretamente ao conceito do ativismo hacker, não no sentido restrito da tecnologia, mas como alguém que manipula sistemas para criar valor.
Enquanto o hacker reescreve linhas de código para abrir novas portas, o malandro cria regras sociais com humor e ousadia. E ambos compartilham da mesma essência disruptiva (ui, usei a PALAVRA, meu deus, me perdoe!): a capacidade inata de quebrar o sistema (digital, social ou cultural).
Também é uma forma de resistência, de transformar limitações em potencial e criar novas narrativas.
A malandragem não pede licença, mas também não invade. Escorrega, desliza, cria atalhos. E, como o hacker, não destrói, mas reinventa.
Hacking e malandragem são irmãos que dançam ritmos distintos, mas compartilham a mesma alma da insubmissão. Não se conformam com o dado, com o fixo, com o que já está escrito. Ambos alteram o destino: o hacker com sua sintaxe precisa; o malandro com o improviso de um samba que não se ensaia.
Eles estão por aí para nos dar aquele toque de que viver é a arte da subversão criativa.
Por isso, como diz o poeta: mete dança, meu pivete!
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