A arte e a erudição talvez sejam como uma aura mágica que pode nos envolver, tornando a vida mais luminosa, mais intensa, mais sensual. Elas nos fazem enxergar o mundo pelas lentes do texto, da poesia, das nuances de uma vida culta que nos protege da aridez de um mundo sem propósito, repleto de superficialidades e carente de pessoas raras e fascinantes.
Não quero dizer que quem não é culto não me interessa. Muito pelo contrário: a cultura popular tem uma riqueza única, uma força que nasce das ruas e da aridez da vida, carregando em si uma autenticidade crua e poderosa.
Mas é inegável que o mundo carece de pessoas realmente interessantes. Estamos todos presos a telas brilhantes, consumindo o mesmo vazio disfarçado de novidade, embalado de formas diferentes apenas para nos iludir e nos fazer acreditar que há algo novo e valioso ali.
Por exemplo, estou lendo Clarice – Entrevistas, um primor da arte da conversa inteligente, repleto de profundidade e sensibilidade.
Não são apenas entrevistas, são exposições da alma de Clarice Lispector e de seus interlocutores, mostrando o verdadeiro valor de uma boa troca de ideias.
E confesso: muitas personalidades que estão ali naquelas páginas da década de 60 eu nunca ouvi falar e já estão mortas. Mas nada impede de ser um baita alimento para a alma. Aprendo com esses famosos de outros tempos. Consumo a inteligência e o olhar particular de cada um que se mostrou ali.
Fica difícil não comparar com o marasmo dos podcasts fast-food atuais, como o Podpah, em que muitas vezes falta substância e sobra superficialidade. O contraste é gritante: aqui, a palavra é tratada com reverência, como arte.
E podcasts, em geral, me dão a mesma sensação de jogos eletrônicos: quando estou imerso neles parece que perco tempo. Falta algo. Porque no meio de qualquer boa conversa também mora o pensamento crítico.
Nos momentos de folga no trabalho, Valha-me, Nossa Senhora, que exaustivo. Sei que pode soar mal dizer isso, mas há tanta conversa frívola, tanta ausência de profundidade, tanto lugar-comum!
Há uma certa solidão nesses momentos. Tudo o que me resta é observá-los com um misto de encanto e estranhamento, extraindo personagens de seus olhos mortos para a vida e de suas bocas que exalam a fumaça de cigarros eletrônicos.
São poucas as pessoas que regam seu próprio jardim. São as ilhas que resgatam meu espírito náufrago e à deriva.
Leiam meus amigos, leiam. Sejam ilhas robustas e autossuficientes. Só assim para ser feliz nesse mar de tristezas imensuráveis.
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Clarice Lispector – Entrevistas reúne 83 conversas realizadas por Clarice Lispector com diversas personalidades do Brasil, desde escritores e artistas até políticos e atletas. Organizado pela especialista Claire Williams, o livro oferece uma visão inédita e profunda da autora, revelando facetas pouco exploradas em seus escritos.
POR QUE LER
Uma Clarice diferente: Longe da imagem introspectiva e reservada, a Clarice entrevistadora se mostra curiosa, perspicaz e engajada com o mundo ao seu redor. É a aula de jornalismo que não tive na faculdade.
Conversas reveladoras: As entrevistas abordam temas variados, desde questões existenciais até a criação artística, permitindo ao leitor conhecer melhor a visão de mundo de Clarice e de seus entrevistados.
Um retrato da época: As conversas refletem o contexto histórico e cultural do Brasil nas décadas de 1960 e 1970, oferecendo um rico material para estudos sobre a sociedade brasileira.
Uma Clarice mais humana: Ao interagir com diferentes personalidades, Clarice revela sua humanidade, seus medos, suas dúvidas e seus sonhos.
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