
Não é porque o ruído branco de uma chuva torrencial muito bem-vinda que caiu depois de dias e dias de um calor sobrenatural e me beijou a nuca tarde da noite enquanto eu bebia uma Lager que doía a garganta de tão gelada, que eu serei um bom escritor.
Grandes eventos escondidos nos pequenos acontecimentos e o dom de percebê-los e glorificá-los, como ações mágicas de um divino misterioso, não significa propriamente que é fácil descrevê-los.
Vago pelo terreno do pensamento incerto, da atenção prejudicada, dos livros que se acumulam por conta de vícios dopamínicos eletrônicos (que intimamente, até prefiro, já que me dá menos problemas, ao contrário dos adictos por pessoas).
As mensagens rasas que chegam repentinamente, que nada acrescentam à vida e que você transforma em uma ideia para um post, um conto, uma história completa ou somente um diálogo igualmente raso para ser usado no futuro, não são o suficiente para se fazer um bom escritor.
Eu vi uma chuva de meteoros rasgar o céu em uma madrugada fria. Vi centenas de lagartixas assustadas pularem de seus esconderijos em um quintal enorme. Senti o cheiro de besouro na escuridão de uma pequena floresta de plantas.
Senti, nas minhas costas, deitado na cama, pequenas patas de filhotes de gatos ainda na barriga da minha bichana que adorava se deitar em mim nessa posição. Eu já ouvi o som da formiga saúva, de um rio submerso, o último e o primeiro (❤️) suspiro de um ser humano (ambos possuem algo em comum: estão embebidos de terror e amor).
E o que se faz com tudo isso? Como se vertem essas vivências em palavras?
Não sou Stendhal, não sou Flaubert, Miller, nem Gibson, muito menos Amado. Sou apenas alguém que acha que poderia fazer algo com suas poucas gramas de uma sensibilidade que só faz sentido dentro de um corpo tomado por pêlos brancos e que está sempre avaliando e colhendo nuances inéditas de tudo aquilo que poderia ter sido mas não foi (porque a vida é bela em seus arrodeios catastróficos, que depois tomamos como lição e que gostamos de dizer “foi melhor desse jeito”, mesmo que subconscientemente os sonhos lhe digam o contrário, em imagens tão reais que se pensa “mas quem diabos está aí dentro planejando me sabotar?”).
De todo o modo, continuo tentando até quando a dama da escuridão, vestida de cetim , me puxar para a última e apaixonante dança. É que sou teimoso e só um dia desses aprendi a escolher, pois já não me contentava mais em ser escolhido. E se caso escolho errado, volto a escolher de novo e de novo. Escolho, sim, ser um bom escritor, mesmo sem a certeza de como posso sê-lo.
E quanto mais escrevo, quanto mais meus dedos destilam palavras aglomeradas de um repertório cultural múltiplo, dos rancores, das dores da alma que crio com minhas ações ou vindas do externo, das alegrias repentinas (bálsamo que dá pulso e riso ao coração), mais me dou conta: eu, com absoluta certeza, não sou um bom escritor!
Ok, mas não vamos ser tão críticos.
Se nossas ideias parecem ecoar outras vozes, digamos que não há problema. A originalidade emerge do terreno único de nossas almas, mesmo que todas as almas possuam veredas e nuances em comum.
Em meio à impaciência com o processo, abraço o movimento lento do tempo. Cada palavra escrita é um passo curto no caminho que me leva ao amanhecer das “habilidades natas”. Flores esperando a primavera, petala por petala, no meu ritmo.
Na trama da escrita, lembrar que não sou um artífice perfeito, talvez a figura de um criador de sonhos, esses, sempre divagantes e confusos. Então, não há padrão.
Cada linha é um verso, cada erro é uma estrofe, e no tecer das palavras, descubro que o verdadeiro encanto reside na jornada (e na fuga dos clichês, 😄).
Sei que um bom escritor é, antes de tudo, um bom leitor. Mas há algo que faz a diferença. Uma batedeira que mistura tudo e cria algo diferente. Uma minúcia indizível, impenetrável. É essa a grande dica que ninguém oferece e nem poderia, já que “apontar o caminho e percorrer o caminho” são itens bem opostos.
Tarde da noite, na penumbra do quarto, sob o efeito das Lagers, ouvindo o manto sonoro da sinfonia de grilos e latidos estridentes de cachorros que perdem a razão na lua cheia, me resta a sensação solitária de ser o único infeliz ainda acordado, ruminando o quanto se é um bom ou não escrevinhador de histórias absurdas que disfarçam uma vida simplório mas não menos encantadora e risonha.
Pensando bem, posso até não ser um bom escritor, mas, puta merda, como sei celebrar qualquer bobagem!

Descubra mais sobre ::: DENIAC E SUA VIDA LOW-TECH :::
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.