Um dos contos de ficção científica que estou tentando escrever tem uma cena que se passa nesta data, 4 de dezembro, dia de Santa Bárbara, protetora dos raios, trovões e tempestades e que, no sincretismo religioso, representa o orixá Iansã.
E essa música da Luiza Lian com o Bixiga 70 é como a trilha desse momento, algo apoteótico e quase sobrenatural da história e difícil como o diabo de se escrever.
Mas continuamos tentando até ficar bom, seja lá o que isso signifique.
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A primeira vez foi em 1983, à noite, no quintal da casa da minha avó: sob uma lua pálida e brilhante, um morcego enorme comia bananas ainda no cacho tendo meus pequenos olhos como testemunha, em um misto de terror e fascinação.
A segunda vez foi em 1984, quando acordei em minha casa, totalmente escura, com um único facho de luz do sol da manhã entrando pelas frestas do telhado, projetando no chão um céu bonito, com nuvens passando, em um grau de qualidade tão surpreendente que até os pássaros em trajetória rápida podia se ver.
A terceira vez foi em 1987, quando encontrei a carcaça verde de um gafanhoto lindíssimo e o coloquei como decoração na estante do quarto e achava que ele me “protegia” de algum modo.
A quarta vez foi em 1989, quando encontrei uma pedra estranha enterrada no quintal de casa, redonda, preta, do tamanho de uma mão fechada, com pontos brancos, inquebrável. Fechava os olhos, colocava na testa, ela me dava visões de tempos antigos, de todas as batalhas que aconteceram ali muito antes das casas daquele conjunto habitacional fossem construídas.
A quinta foi em 1991, quando comecei a colecionar, em uma caixa de fósforos, amuletos mágicos: uma cabecinha de saúva, uma “borboleta 88” morta, a casca de ovo de uma lagartixa, o bigode de um gato que fugiu de casa.
A sexta foi em 2006, quando me deitei no quintal da mesma casa, também no escuro, em noite de lua cheia e minha gata Aisha me imitou. Ficamos nos olhando, como se conversássemos telepaticamente. Ela “me contou” sobre como era bom morar ali e como doeu o último parto e que se ela podia comer mais carne ao invés de ração.
Depois disso, li demais e racionalizei demais. A vida precisou de outras urgências além de andar no mato depois da Piaçaveira (e que agora tem um outro bairro e mais outro). Não dei bola para os meus sonhos, não li os sinais da vida, não flertei com os dias de chuva e relâmpagos. Passei anos e anos me cegando.
Daí veio a sétima vez. E parece que eu estava dormindo. Sem me dar conta que um caminho de encantamento estava todo tempo avisando que o “verde” do mundo era meu e que eu precisava dele para ser eu. Mas eu precisava “morrer”. Aí eu “morri”. E agora, não apenas eu, mas tudo estava vivo novamente. Do orvalho da manhã que beija o rosto bem mansinho até a poeira fina dos cantos da casa (relógios do tempo e da urgência), tudo transbordando amor.
E eu estou acordado. Tudo simplesmente “alumiô”!
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