Sempre presto muita atenção em meus primeiros pensamentos ao acordar. Sei que estão vindo direto da sala secreta do meu inconsciente. O oráculo que preciso para entender o dia.
E o de hoje foi multimídia: frases estranhíssimas e uma música.
As frases: “Qual é a música das antigas estrelas que ecoam através do tempo? / A arte de combinar sons e silêncios. / O vazio e o preenchido no mesmo lugar. / Uma simples onda sonora produzida pela vibração de um objeto que entra nos ouvidos e marcam os acontecimentos. Capítulos de livros vivos.”
A música: “Since I Left You”, dos The Avalanches.
(“Ah, mas como você lembra dessas coisas?” Eu anoto ainda na cama. Mas acho que essas frases talvez tenham alguma ligação com a canção. É sobre duas coisas, dois pontos de vista, duas interpretações, dois olhares. O duplo escondido nos detalhes que clama vir ao mundo como um crime de um serial killer clama por ser descoberto. )
Há algo profundamente misterioso nos relacionamentos. São como um intrincado quebra-cabeça, onde cada peça traz uma perspectiva, uma experiência pessoal, e, quando encaixadas, revelam uma imagem mais complexa e bela. O videoclipe de “Since I Left You”, do grupo The Avalanches é uma metáfora perfeita para esse aspecto multifacetado das relações.
Todos os clipes deles contam histórias com significados diversos. Neste, dois mineiros sujos que estão abaixo de uma escola de dança (sim, bem surrealista) ouvem uma música acima, abrem um buraco no teto, sobem e descobrem um mundo novo.
Um deles, um homem normal, fora dos padrões de beleza, deixa-se encantar e se entrega ao momento. Então, ele se torna “belo” sendo ele mesmo, sem maquiagem, sem táticas, sem planejamentos, com toda a sua “sujeira” das minas à mostra. Entrega-se aos sentimentos de olhos fechados.
O outro, ao contrário, fica pelos cantos, observando, pensando demais, tentando criar alguma estratégia para que o companheiro de trabalho volte ao seu estado normal. Mas, ao final, vendo que a energia do novo, do movimento, do balanço contagiante da canção toma o corpo do amigo e de que ele, infelizmente, não consegue fazer o mesmo por algum motivo, acha melhor voltar para a mina.
E há outra mágica presente no refrão: há uma dualidade lírica. A faixa mal tem três versos e é uma brincadeira que faz mais sentido quando cantada em inglês, evidenciando interpretações dúbias, além de sentimentos duplos: algo esperançoso ou triste? Celebra o novo ou o nostálgico? Choro ou riso? Apaixonado ou de coração partido?
Eis a genialidade da dupla de produtores Robbie Chater e Darren Seltmann: a resposta é o que você quiser!
O título da composição é “Since I Left You”, mas depois de ler, você vai pensar que é isso que está sendo falado. Mas não, o sample do vocal diz “Since I Met You”.
Ao trocar “Left you” por “Met You”, muda-se todo o significado e engana seu cérebro fazendo-o pensar que qualquer uma que você quiser é a verdade. Tudo é uma metáfora sobre como você “escolhe” reagir aos acontecimentos.
É uma viagem de crescimento e exploração de uma pessoa que deixou a sua vida anterior e começou tudo de novo. A alegria de ressignificar, encontrar um mundo novo e diferente.
É aquele negócio: a vida, por mais difícil que possa ser, sempre vai oferecer mais de um caminho, mais de uma possibilidade de reinventar-se, de recomeçar e “re-experimentar” tudo como uma viagem única e maravilhosa.
O segredo é estar atento. Porque sim, o Diabo está nos detalhes, mas Deus também está!
E é ao perceber esse ponto que, finalmente, chega o momento de fechar os olhos e se entregar à dança. Transparente. Nada de caminhos escusos no coração. “Ter fé e dançar na beira do abismo”.
É preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante.
Friedrich Nietzsche
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Parabéns pela qualidade das palavras e do sentimento envolvido em cada linha .
Maria .
Obrigado, Maria. Que bom que gostou!